Terça-feira, Julho 22, 2008

O EXEMPLO VEM DA FLÓRIDA, AMIGO ELOÁ!

Na lufa-lufa pra colocar o ponto final no nosso Dicionário de Religiões Africanas nas Américas (nome provisório), de repente surge uma novidade (de 15 anos atrás) da qual já tínhamos ouvido falar mas não conhecíamos detalhes.

A “novidade” rendeu um verbete consistente, que temos a alegria de dedicar ao nosso amigo Dr. Eloá dos Santos Cruz, jurista afro-descendente, que, com a força de seu pai Xangô vem há doze anos, sozinho, e através de uma Ação Popular, sustentando uma titânica luta judicial contra a privatização da Vale do Rio Doce, como em breve detalharemos.

Leia aí, Eloá! Veja a luz lá no finzinho do túnel. Olhe aí o caminho pro povo-de-santo ficar internacionalmente unido e mais forte!

Leiam e reflitam, caríssimos e lúcidos visitantes, independente de origem étnica ou orientação religiosa!

Church Of The Lukumi Babalu Ayé (CLBA). Congregação religiosa fundada em 1974 na cidade Hialeah, na Flórida, um dos Estados Unidos da América. Primeira entidade de culto aos orixás iorubanos criada no país, pugna pela pureza da tradição em relação à matriz afro-cubana, fora de qualquer variação sincrética e por ser reconhecida como a grande referência da REGLA DE OCHA fora do Caribe. Congregando membros de cerca de 35 nacionalidades, segundo sua página na Internet, em 1993 deu prova de sua força quando conseguiu, na Suprema Corte, vencer uma demanda assim resumida, conforme a decisão do alto tribunal: A CLBA alugou em Hialeah, Florida, uma propriedade onde planejou estabelecer um complexo de igreja, escola, centro cultural e museu. Sua religião é a santeria, que surgiu no século 19 em Cuba e adota o sacrifício de animais, além do tratamento de doenças, entre outras práticas de sua tradição. Entretanto, contrariando o propósito da CLBA de realizar rituais a céu aberto, a cidade de Hialeah promulgou vários ordenamentos no sentido de coibir tais práticas, proibindo expressamente, em decreto de junho de 1987, o sacrifício de animais de qualquer espécie. Em 1993, porém, a Suprema Corte, em decisão unânime, anulou esse decreto. A decisão baseou-se em princípio constitucional que garante a todos os indivíduos a liberdade de exercer sua religião. Embora o sacrifício de animais possa parecer abominável a algumas pessoas – assim entendeu o juiz relator – crenças religiosas não precisam ser aceitas, lógicas, consistentes ou compreensíveis a olhos alheios, nos termos da proteção concedida pela Primeira Emenda da Constituição dos Estados Unidos da América

(cf. http:// atheism.about.com/library/decisions/religion/bl_1_LukumiHialeah.htm).

Observe-se mais, como dissemos em texto anterior, que, na santería, como no candomblé, os animais sacrificados, depois de oferecidos às divindades, vão pra mesa, para serem gostosamente compartilhados pela comunidade de fiéis.




Segunda-feira, Julho 21, 2008

UM MACUMBEIRO RAÇUDO E BOM DE BOLA

Mexendo aqui na papelada e nas revistas velhas (dessas que, por estratégia comercial, não informam o mês e o ano de sua publicação, e aí não podem ser citadas nas bibliografias), encontro um depoimento do pai-de-santo Jamil Rachid, paulistano de origem libanesa, líder da Umbanda em seu Estado, presidente que é da “União das Tendas de Umbanda e Candomblé do Brasil”.

“Tudo o que é feito por Deus é encaixado direitinho, porque Deus faz as coisas certas, nós é que fazemos tudo errado”, mete lá o Pai Rachid a certa altura do depoimento. E completa: “Um dia, fui a esse templo [um “centro espírita”] e justamente o Pai Jaú era o dirigente. Isso em 1948, quando eu tinha cerca de 17 anos. No primeiro dia que assisti, caí; a entidade me pegou e me judiou.”

O engraçado é que nós já tínhamos ouvido falar no Pai Jaú, negão paulista, jogador de futebol e pai-de-santo, craque da seleção de 38. Aí, fomos lá no “Guia dos Craques”, de Marcelo Duarte (São Paulo, Abril Multimídia, 2000) e encontramos:

“JAÚ, Euclydes Barbosa (São Paulo, SP, 1909 – 1988: Marcador viril, raçudo, entrava nas divididas para ganhar. Um dos heróis corintianos da década de 30, foi bicampeão paulista em 1937/38. (...) Disputou a Copa de 1938 e fez dez partidas pela Seleção. Ao abandonar a carreira, Euclides se transformou no pai-de-santo Jaú, devoto de Ogum e filho de Xangô”.

Tá explicado o “marcador viril, raçudo, que entrava nas divididas pra ganhar”.




Sexta-feira, Julho 18, 2008



SAMBA E MACUMBA: O LOTE EM NOVA IORQUE

Numa atividade de intercâmbio do SESC-São Paulo (sempre ele!) com uma entidade norte-americana, o "Berço do Samba de São Mateus" (show e CD aqui noticiados no ano passado) esteve, em junho, na cidade de Nova Iorque. No Harlem e na Broadway, bilivem-me!

Durante uns dez dias, os mano da perifa (mas de sapatos bicolores e chapeuzinhos panamá de abas curtas, como os minino do Quinteto em Branco e Preto), cantaram, sambaram, batucaram, tiraram chinfra e ainda se emocionaram vendo e ouvindo um coral de crianças do Harlem cantando "Bahia de Todos os Deuses", samba-enredo salgueirense de 19... Entretanto, por mais ameizing e ambilívabou que possa parecer, nesse intercâmbio, a macumba ficou por conta dos bróders. É que, embora muita gente não saiba, a busca das raízes africanas está cada vez mais firme por lá. E em termos religiosos essas raízes, infelizmente, estão, hoje, cada vez mais perto deles do que de nós. Explicamos.

No finalzinho dos anos 30, a mitológica bailarina e coreógrafa Katherine Dunham, mestra da nossa querida Mercedes Baptista, indo a Cuba pela primeira vez, lá teve seu contato inicial com a tradição dos Orixás lucumís (iorubanos). Em 1952, já iniciada, recrutou os músicos rituais Julito Collazo e Francisco Aguabella para integrarem sua companhia de danças, digamos assim, étnicas. Filho da renomada ialorixá Ebélia Collazo e exímio tocador de batá (o tambor criado por Xangô), Julito tornou-se, então, o pioneiro de um pequeno grupo de iniciados que estabeleceu e desenvolveu o culto aos Orixás em Nova Iorque.

De lá pra cá, a coisa só fez crescer. Inclusive com uma decisão da Suprema Corte, na década de 1980, legitimando o sacrifício de animais em oferendas - principalmente porque, na melhor tradição, depois de eles serem oferecidos às Divindades, suas partes comestíveis são alegremente saboreadas pela comunidade de fiéis. Mas, antes disso, e até 1958, muita gente importante foi a Havana, Matanzas e Santiago de Cuba fazer santo. E, após o "bloqueio", o endereço "610 W, 136th. St, Manhattan" fez fama como espaço de culto, motivando a abertura de vários outros.

Em 74 era fundada na Flórida, a "Church of the Lucumi Babalú Ayé", título que pode ser traduzido, em bom brasileiro - e sem aquela escrita complicada de que os presepeiros e marmoteiros tanto gostam - como "Igreja do Obaluaiê (Omolu) Iorubá (nagô)". No ano seguinte, o primeiro conjunto de tambores anhá, de grande fundamento, consagrado a um orixá já desaparecido no Brasil, era sacralizado em Miami.

E foi isso o que mais surpreendeu o "Berço do Samba de São Mateus" em Nova Iorque: os bróders de fios-de-conta no pescoço, nas cores de seus respectivos "orisha", orgulhosos e felizes de ver o mesmo nos seus resistentes irmãos de São Mateus. Certamente sem saberem que uma das fotos que ilustrava o cartaz de divulgação da programação (essa aí de cima, que figurou ao lado da foto de Tia Cida, a charmosa filha do general-da-banda, o não menos saudoso cantor Blecaute) era de um irmão também, iniciado na fronteira do Rio com a Baixada, na decisiva década de 70, e "reciclado", via Havana, no início deste novo Século.

Foi assim, então, que, bem longe da intolerância irracional dos tabernáculos, diáconos, presbitérios, ministérios e louvores gospel de araque; foi assim que o Harlem e a Broadway transformaram-se, por alguns dias, na gloriosa "periferia" aqui deste nosso Lote virtual.

Modupê, Babá Mi!




Quarta-feira, Julho 16, 2008

O ECTOPLASMA DO SAUDOSO JORNAL DO BRASIL BAIXOU NO LOTE

O falecido Jornal do Brasil, onde um dia brilharam os saudosos Juarez Barroso, Lena Frias e Marta Caballero; o internacionalmente respeitado historiador José Ramos Tinhorão e outros nomes importantes, de vez em quando, como bom espírito obsessor que é, sai da tumba e vem assustar a gente aqui no Lote. E ontem, dia 15 de julho (véspera do "fantasma de 1950"), o fantasmagórico periódico, em forma de ectoplasma, voltou a assombrar.

O "ecto", desta vez, foi um garotão chamado MÁRIO MARQUES, ex-morador daqui da Baixada, hoje emergente da Barra e metido a crítico de música. E que mandou a seguinte letra. Prestem atenção!

"No último fim de semana (...) procurando um show para o sábado, dividi-me entre Alexandre Pires, Dorina, Galocantô, Henrique Cazes, Samba com Atitude, Sururu na Roda, Ana Costa e Conversa de Botequim. Dos cerca de 30 artistas da programação, mais da metade era de samba. Numa cidade em que o sujeito de bem não pode tomar uma taça de vinho e dirigir, mas pode tomar tiros a esmo de traficantes e da polícia, que não tem um cardápio variado de shows e que é perseguido pelo loteamento de blockbusters, a sentença mínima a ser dada é: o Rio de Janeiro está morto."

**

Cariocas e fluminenses de todos os quadrantes, uní-vos! O e-mail do "ectoplasma" é mariomarques@jb.com.br.

E... ô, Jornal do Brasil! Revertere ad locum tuum, pô! E não enche mais o saco da gente! Vai assombrar o ... deixa pra lá...




Terça-feira, Julho 15, 2008



Eleguá mandou chamar.
E o SAMBA vai rolar!
HOJE, dia 15, às 20h,
na
MODERN SOUND
Rua Barata Ribeiro, 502
lançamento carioca do
DVD de
NEI LOPES

Com a luxuosa participação da Banda Fina Flor.
Grátis, mediante reserva: 2548.5005




Segunda-feira, Julho 07, 2008



O ANJO-DA-GUARDA DO SAMBA

Sábado, a “van do Honnneur”, o francês que presta serviços à “Rede Hilton” (que inclui o magnífico Candongueiro, complexo sambístico-etilo-gastronômico em Marie-Paule, no condado de Pen d’Autibah) saiu daqui do Lote levando nossa comitiva pra comer uns pasteizinhos de siri, tomar umas timbucas e eventualmente cantar uns pagodes lá do outro lado da poça.

Samba vai cerveja vem, o Hilton, dono da rede (aqui, minúscula) e da inigualável Dona Hilda, manda a notícia:

– O Luiz Grande tá doente...

Esse Luiz, pra quem não sabe, é o Grande compositor da Imperatriz, autor ou co-autor de sambas antológicos dos repertórios de João Nogueira, Zeca Pagodinho e muitos outros – como “Maria Rita”, “Parabólica”, “Dona Esponja” ... – alguns deles em parceria com Barbeirinho e Marcos Diniz, seus companheiros do Trio Calafrio.

Mas a má noticia é logo suavizada :

– Se não fosse o Doutor Bigu... Não sei, não...

“Doutor Bigu” pra quem não conhece, é o apelido do médico Jorge Luiz do Amaral (na foto meio antiga, lá em cima), professor da Escola de Medicina Souza Marques, diretor da Federação Nacional dos Médicos e do Sindicato de sua categoria no Rio de Janeiro, membro da Comissão Intersetorial de Recursos Humanos do Conselho Nacional de Saúde e autor do estudo “Avaliação e transformação das escolas médicas: uma experiência brasileira na ordenação de recursos humanos para os SUS, nos anos 90”, com que se fez mestre na UERJ.

Sentiram? É um médico daqueles da antiga, preocupado com o social e não com os presentinhos e viagens a congressos fajutos com que os “empurroterapeutas” se deixam subornar pela indústria farmacêutica multinacional.

Brasileiro, socialista e de gosto refinado, Bigu há muito que fez sua opção preferencial pelo Samba. E aí, juntando o útil ao agradável, carregando na maletinha preta um estetoscópio e um agogô, ele se tornou o anjo-da-guarda do samba. Querem ver?

Luiz Carlos da Vila tá aí forte, bonitão e cada vez mais inspirado, graças a quem? Ao Doutor Bigu.

Meu parceirão Wilson Moreira igualmente recebeu, na hora crítica, toda a força do Bigu. O compositor Bandeira Brasil, também, recentemente – me conta o Hilton – foi acolhido sob as asas deste grande amigo de nós todos. E muitos e muitos outros.

Doutor Bigu é o cara! Aquele certo nas horas incertas. Aquele que é capaz de tirar o jaleco pra estancar o sangue das feridas que quase todo sambista carrega, no corpo ou na alma, nesses tempos de capitalismo selvagem, em que qualquer triozinho de roqueiros vagabundos é uma banda; e nós, sambistas, “não somos nada” – como disse o velho Lima pela boca de sua/nossa filha Clara dos Anjos.

Mas nós ainda temos o Doutor Bigu. O médico da família sambista e de todos aqueles que não podem se dar ao “luxo” de pagar um plano de saúde.

Mas...Não! Pêra aí! O Bigu não é candidato a nada, não! Pelo menos enquanto não vagar a cadeira de Imhotep (o verdadeiro pai da medicina, Egito, 2700 AC) lá em cima. Não é, Bigu?

Que Inlê-Ábata e Babá Oluayê, os médicos dos médicos, te protejam!




Sexta-feira, Julho 04, 2008



LANÇAMENTO DO DVD "NEI LOPES - AO VIVO"

9 de julho - quarta - 18h

SESC Vila Mariana
Rua Pelotas, 141
São Paulo - SP
(11) 5080.3000







MEU IRMÃO MAVILE

Meu Dicionário da Antiguidade Africana, há 2 anos no prelo da Editora Civilização Brasileira, tem uma dedicatória assim redigida:

“Para meu irmão Ismar Braz Lopes, o “Mavile”, operário gráfico que, nos anos de 1950, ao me presentear com meus primeiros livros, inoculou em mim o amor pelas Ciências da Humanidade”.

E o fato é que tenho até hoje pelo menos um desses livros, aos quais veio se juntar, em 1977, um exemplar, encadernado em capa verde, da primeira edição do pioneiríssimo Dicionário de Cultos Afro-Brasileiros de Olga Gudolle Cacciatore, no qual chama a atenção, escrita em tinta também verde de caneta pilot, naquela caligrafia inconfundível, as letras nunca se juntando e sem o uso de nenhum ponto ou vírgula (absolutamente dispensáveis) esta outra dedicatória:

“Para o Nei com todo carinho do Ismar (Mavilis) 25.12.77”.

Pois é. A origem do apelido, grafado de forma diferente por mim e por ele, estaria num clube de futebol do antiga Praia do Caju onde, ainda bem pequenininho, meu irmão teria sido encontrado depois de se perder, num giro pelas redondezas, andarilho que já era. O nome do clube deveria ser, provavelmente Ma Ville (do francês, “minha cidade”), talvez de uma fábrica ou empresa francesa ali estabelecida. Mas, para ele, sempre foi “Mavilis”, substantivo paroxítono, com jeito de latim.

Só que, há algum tempo, por conta dessa mania de dicionário com a qual ele muito colaborou para me enfeitiçar, descobri que “Mavile” é uma entidade do povo Cabinda, andarilho, safado, biriteiro, mulherengo, nem bom nem mau. E aí, sacramentei a grafia.

Pois foi meio assim igual a esse Mavile congo meu irmão Ismar, que partiu para a Outra Dimensão na manhã do dia 2 de julho, dia dos Caboclos. Partiu aos 77 anos, deixando uma lembrança muito boa. Principalmente do tempo em que seu temperamento meio inconseqüente ainda não era uma doença: era só um jeitinho moleque capaz de frases como esta:

- Ah! As melhores coisas da vida são três: cerveja gelada, empada e Jorge Ben!

Isso no tempo em que a cerveja era inocente, a empada tinha recheio, e o Jorge Ben era o Jorge Ben mesmo.

Saudade do meu irmão... Ibaê baiê torum!




Segunda-feira, Junho 30, 2008



KOFI E O MENINO DE FOGO

É com essa ilustração aí, e mais umas dez, que o Velhote do Lote vai fazer sua estréia na literatura infantil e sua entrada triunfal no incomum mercado europeu.

A ilustração é de autoria da francesa Hélène Moreau, une designeuse da pesadíssima; e a editora é a nossa Pallas, na qual as queridas Cristina e Mariana Warth, mãe e filha, batem uma bola redondinha, honrando a memória do patriarca da família, o saudoso Antônio Carlos.

E, aí, lá vou eu, passando pelo Arco do Triunfo, cantando aquele animado samba de Paderinho e Nei Lopes (gravado por Nilze Carvalho) que diz: "Eu sou o samba / e ninguém vai me derrubar / Já sambei na Torre Eiffel / já cantei no Olympiá. / Por isso eu digo, / mes amours et mes amis / naquele papo cretino dos urubulinos / já dei cest fini (Estou aí)".

Ça, ça Paris !!!







AMAR RENOVA E FORTALECE

No domingo 22, deste mês de junho, o jornal O Globo publicava um texto de nossa autoria sobre a questão do Direito Autoral no Brasil. Nele, baseados em nossa experiência como dirigente da AMAR-SOMBRÁS, uma das sociedades que integram o ECAD, dizíamos, em resumo, o seguinte:

Que uns 20 anos atrás, a partir de relatórios divulgados pelo ECAD, via-se que, a arrecadação anual, conjunta, dos 11 maiores autores de nossa canção popular de então não chegava ao que recebia apenas 1 dos grupos multinacionais (gravadora e editora) então no país. E que, ainda hoje a maior parte da renda dos nossos direitos autorais continua indo para as mãos das “multis”, pois a Lei equipara aos autores as empresas editoras a quem o autor cede os direitos sobre sua obra.

Dizíamos, mais, que o compositor cria a música e, na gravação, assina um contrato no qual a editora passa a ser uma espécie de “sócia” no negócio, recebendo, em geral, em torno de 25% sobre o que a obra render. Então, de 25 em 25 a “multi” enche o papo, acontecendo, a partir daí, a absurda concentração de renda que faz com que, do bolo distribuído, o criador de música no Brasil, mesmo quando bem aquinhoado, só tenha direito ao farelo.

Faltou-nos entretanto dizer, no artigo, que as gravadoras multinacionais, além da venda de seus produtos (CDs, DVDs etc) também se beneficiam, na arrecadação do ECAD, de quase 35% dos chamados direitos conexos (os dos intérpretes, músicos executantes e produtores fonográficos) dentro da condição de titulares que lhes confere o art. 94 da Lei Autoral. Assim, e agrupadas, de tempos em tempos, desde a fundação da UBC, na década de 1940, na associação que mais lhes convém, essas gravadoras e suas editoras é que conduzem as decisões do ECAD, onde o voto de cada sociedade é proporcional à sua arrecadação mensal.

A nossa AMAR já teve em seus quadros aquilo que era considerado a “nata” da chamada “MPB”. E, enquanto isso aconteceu, ela, embora ainda fosse sempre “voto vencido” nas assembléias do ECAD (o melhor do bolo sempre foi das “multis”), sentiu-se mais fortalecida para influir, associada à imagem de seus filiados mercadologicamente mais conhecidos – com os quais os políticos profissionais sempre gostam de ser fotografados –, até mesmo a elaboração de boa parte da atual Lei Autoral, em vigor desde 1998. Mas, pouco a pouco, algumas dessas “ilustres figuras” foram mudando de casa, indo parar (galinhas na toca da raposa) nos braços das mesmas associações que congregam as gravadoras multinacionais. Entretanto, quem era firme e coerente, de verdade, ficou na AMAR, agüentando, entre outros muitos trancos, até uma CPI criada por deputados donos de emissoras de radiodifusão que achavam que pagar direitos autorais era um absurdo.

Agora, nestes tempos violentos em que o capitalismo selvagem tudo compra ou desagrega – tempos em que, por exemplo, grupos se organizam para fraudar a codificação internacional que identifica as gravações (ISRC) e receber direitos como se músicos fossem; em que dentro de grandes emissoras de TV geram-se informações para fazer com que simples vinhetas de 30” tenham valor de execução e arrecadação igual ao de obras musicais no sentido estrito; em que até o Ministério a que está afeta a questão acha que o cumprimento da Lei Autoral é que “impede a circulação da Cultura” –; nestes tempos duros, a AMAR, muito mais que uma associação gestora de direitos, é uma organização da sociedade civil, comprometida politicamente com o aprimoramento das instituições, com o equilíbrio entre os vários segmentos sociais e com a defesa do patrimônio cultural do povo brasileiro.

Desde sempre, a única sociedade autoral musical, no Brasil, exclusivamente liderada e administrada por autores, compositores, escritores, intérpretes, arranjadores, regentes, professores e intérpretes de música, a AMAR é exemplar. E quem quiser comprovação, basta acessar a página www.amar.art.br. Ou dar uma folheada no livro Arrogantes, anônimos, subversivos: interpretando o acordo e a discórdia na tradição autoral brasileira, de Rita de Cássia Lahoz Morelli – Campinas, SP, Mercado de Letras, 2000.

Aí, vai dar para entender porque o Direito Autoral no Brasil é “questão de segurança nacional” – como disse, um dia, nosso firme companheiro Hermínio Bello de Carvalho (foto acima).




Terça-feira, Junho 24, 2008



OS 79 DO “MULATO-AMERICANO” NOS 50 DA BOSSA-NOVA

Em 1966, no seu pioneiro Música popular, um tema em debate, José Ramos Tinhorão (que, de simples “crítico ranzinza” ascendeu à condição de um dos maiores historiadores da cultura popular brasileira e acabou por encetar carreira acadêmica, pra calar a boca dos donos da chamada “MPB”), listando os “pais da bossa-nova”, iniciava o rol com o nome de Johnny Alf, assim descrito: “pianista mulato brasileiro de nome americano”.

Três anos depois, era publicado O samba agora vai...: a farsa da música popular no exterior. Nesse livro, contando a saga do produtor Aluísio de Oliveira, “antigo empregado de Walt Disney”, em seus “40 anos de serviços prestados à música norte-americana”, Tinhorão, ao mencionar o encontro de Aluísio com a jovem cantora Silvinha Teles, que viria a ser sua mulher, afirma que ela “aumentava a idade para poder ouvir o mulato americanizado Johnny Alf tocar piano na boate Plaza, em Copacabana”.

É claro que Tinhorão hoje escreve diferente. E nem tem mais tempo pra perder com essas bobaginhas dos anos 60, quando merenda ainda não era fast-food; nem liquidação, sale; nem entrega era delivery; e quando o único referencial positivo dos afro-brasileiros eram os negros americanos.

Tinhorão hoje escreve diferente! Mas com a mesma clareza de sempre. Porque quase nada do que ele escreveu sobre a bossa-nova perdeu a validade. E ele, hoje, certamente há de reconhecer que, apesar “do acidente da cor” (expressão cunhada pelo padre Januário da Cunha Barbosa em elogio ao orador sacro João Pereira da Silva, no século 19); apesar de excluído, Johnny Alf foi “o cara”.

Digo isso a propósito da matéria “De bem com a vida”, de Antonio Carlos Miguel, publicada na edição de 22.06.08 de O Globo. E sabendo que não só Johnny Alf foi “limado” do tal concerto do Carneggie Hall nova-iorquino em 1962 (“Disseram que não me encontraram, mas tinha gente que não gostava de mim” – entrega Alf), que no fundo foi uma festinha VIP brasileira, entre amigos, quase todos com sobrenomes em placas de ruas, edifícios ou galerias da zona-sul.

Na mencionada matéria, recendendo a bom perfume, está lá a confessada idolatria de gente finíssima da chamada “MPB” ao “mulato americanizado”, mestre de Tom Jobim, João Donato e tantos outros. E está também o que muita gente, inclusive o Tinhorão, talvez não soubesse: que Alfredo José da Silva, o “Johnny Alf”, nascido em 19 de maio de 1929, e hoje se recuperando (que bom!) de uma doença braba, estudou piano clássico dos 9 aos 14 anos, graças à família bacana de quem sua mãe era empregada doméstica. Isto, é claro, ainda no tempo dos padrinhos e madrinhas, cujas “ações afirmativas” tinham possibilitado, um pouquinho antes, a ascensão de “mulatinhos pernósticos” (ah, se a juventude ainda pudesse contar com essa brisa, talvez, quem sabe...), tais como Machado de Assis, Lima Barreto, Teodoro Sampaio etc, etc, etc.