Sexta-feira, Janeiro 27, 2012



É COM ESSE QUE EU VOU: UMA APOTEOSE AO SAMBA

Nosso amigo, parceiro e “aralorixá” (esta foi inventada agora) Luís Filipe de Lima é um cracaço. Violonista da pesada, melodista talentoso, articulador de projetos mil e arranjador altamente criativo, nos deu, dias atrás, em Brasília, onde cumpríamos mais um item de nossa agenda artística comum, um presente valiosíssimo: o álbum duplo É com esse que eu vou: o samba de carnaval na rua e no salão.

Pra quem gosta de samba, mas não curte carnaval; ou que ainda não entendeu direito que samba e escola de samba não são a mesma coisa... Para quem não sabe que muito do que hoje se classifica como “MPB” é samba, e do bom... Para quem, afinal, gosta mesmo é de música boa, esse álbum (2 Cds) é um presente na medida.

A história começou quando os pesquisadores Rosa Maria Araújo, atual presidente do Museu da Imagem e do Som do RJ e Sérgio Cabral, veterano e conceituado jornalista e critico de música popular, conceberam um espetáculo que revive a graça e a beleza das antigas marchinhas carnavalescas. Sucesso absoluto, em cartaz há vários anos, o espetáculo, intitulado “Sassaricando” (nome de uma marchinha de 1952) motivou um disco. E a ideia acabou levando também ao álbum ora comentado, o qual, no sentido inverso, redundou em um espetáculo, também em cartaz, com grande afluência de público.

“É com esse que eu vou”, o álbum duplo, compreende dois CDs, contendo 82 sambas agrupados em oito unidades temáticas que abordam assuntos opostos e/ou complementares como os seguintes: rico e pobre; orgia e trabalho; cidade e morro; feminismo e machismo; briga e paz. E termina com uma seqüência de “apologia ao samba”.

O período abrangido pelos discos vai de 1968, o que já induz à constatação de que a era dos grandes sambas de carnaval se encerra na década de 1960. E foi realmente assim, pois, na década seguinte, os sambas-enredo das escolas (após o “Pega no Ganzê” salgueirense) ganham a hegemonia das execuções radiofônicas.

No repertorio do álbum, é interessante notar como alguns dos sambas selecionados saíram do âmbito do carnaval para se tornarem peças de resistência de repertórios unanimemente aclamados, como os de Elis Regina e Milton Nascimento. É o caso, por exemplo, de Não me diga adeus, de 1948; Me deixa em paz, 52; A fonte secou, 54; e Mora na filosofia, 55.

O primeiro tem como segundo nome do trio de parceiros “Luiz Soberano”, pseudônimo de Ednésio Luís da Silva, sambista ligado à ex­tin­ta es­co­la de sam­ba carioca Paz e Amor, vizinha da Portela, o qual foi, além de pan­dei­ris­ta de or­ques­tras, autor de cânticos rituais de umbanda e dono de outro grande su­ces­so do carnaval de 48, o samba Enlouqueci. Já os três outros sambas, levam a assinatura de Monsueto (Campos de Menezes).

Popularizado como comediante através de programas humorísticos na televisão, Monsueto foi compositor inspirado, dono de poé­ti­ca ori­gi­na­lís­si­ma e criador de belas melodias, como as das obras mencionadas. Sambista, era oriundo da Praia do Pinto, núcleo favelado da zona sul carioca, destruído num incêndio supostamente provocado por interesses da especulação imobiliária, na década de 1960.

Lendo o encarte do É com esse que eu vou (prazer que a simples audição de musicas baixadas pela internet não possibilita), verificamos que o repertório tem como principalmente selecionados, além daqueles assinados pelos indispensáveis Ataulfo, Ary Barroso e Noel, sambas dos seguintes autores: Herivelto Martins e Wilson Batista, com 5 cada um; Roberto Martins e Haroldo Lobo, com 4; e Roberto Roberti, com 8.

E aí, surge a questão: quem é ou foi esse compositor de sobrenome italianado, recorrente em todas as listagens de grandes músicas do carnaval brasileiro?

O que sabemos é que se trata de um carioca de 1915, que estreou na música profissional aos vinte anos, tendo como parceiro principal Arlindo Marques Júnior e sendo autor de grandes clássicos como Abre a janela, de 1938; Eu não posso ver mulher, 41; Isaura, 45, etc., além dos incluídos no álbum focalizado. No carnaval de 41, Roberti fez sucesso também com um samba cujo título hoje soa bastante incômodo: Nega pelada, me deixa. Mas esse era o espírito da época. Não fosse assim, em 1950, o mulato Evaldo Ruy não teria, em parceria com Fernando Lobo, feito o sucesso que fez com outro que assim dizia: “Tava jogando sinuca,/ uma nega maluca/ me apareceu/ Vinha com o filho no colo /e dizia pro povo /que o filho era meu”.

O samba, uma batucada contagiante, fez tanto sucesso que a “Nega Maluca” virou uma fantasia de carnaval e um símbolo da alegria descompromissada de então. Um símbolo racista, sim; um estereótipo. Mas, no tempo em que o carnaval era realmente folia, transgressão, e não apenas um nicho mercadológico, a gente até achava engraçado.

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Dito isso, fica aqui a sugestão: para quem gosta de samba mas não curte carnaval ou vice-versa, uma grande pedida, nestes dias, é o álbum duplo “É com esse que eu vou”, com sambas ótimos, arranjos e interpretações formidáveis (como se dizia nos anos 50), lançado pela gravadora Biscoito Fino.

Curtam os ótimos arranjos e interpretações, e prestem atenção no vozeirão sambístico do MAKLEY MATOS (o último, na cozinha do bonde, lá em cima) mistura boa de João Nogueira e Roberto Ribeiro que Brasília, em boa hora, mandou pra Lapa, pro Rio e pro Brasil.




Quinta-feira, Janeiro 19, 2012
Quinta-feira, Janeiro 12, 2012


divulgação

REPLEPLÉ BOMBA NA CASÉ

Em novembro, publicávamos aqui, a propósito do culto liderado pela pastora Ana Lúcia de Andrade, o texto “Uma nova igreja negra?”.

Nele, levantávamos a possibilidade de, com essa modalidade de culto, estar nascendo uma nova forma religiosa, um novo pentecostalismo étnico, tendo a ver, por exemplo, com a “teologia negra” pregada em outras vertentes.

Em nosso socorro, veio o amigo Rafael César, sociólogo, editor do precioso livrinho “Cotas Raciais: por que sim?”, escrito pela Cristina Lopes e publicado pelo IBASE em 2008, que mandou assim:

“Difícil dizer o que é e o que vem, mas tenho umas pistas. Primeiro de tudo, esse tipo culto é uma modalidade presente em algumas igrejas evangélicas - sempre frequentadas por uma esmagadora maioria negra - chamado normalmente de RETETÉ e, às vezes, de REPLEPLÉ.

“Esse termo é uma expressão corrente no meio evangélico para designar cultos em que há presença de batuque e transe, e tem em comum o fato de as pessoas ficarem girando, girando, girando, exatamente como no vídeo que você mostrou no post, mas também com uns gestuais típicos de cavalos de umbanda no momento em que estão dando passagem, cruzando braços com os dedos indicadores em riste e assim por diante”. (...)

“É algo bastante discriminado dentre os cristãos, que associam o reteté aos cultos de - assumida - origem afro. Têm toda razão em associar, só não têm razão em discriminar, é claro. Já vi um vídeo no youtube em que as pessoas entravam em transe, caíam no chão... e eram cobertas por panos brancos! Tudo muito parecido. (...)

“Aliás, a primeira coisa que fui fazer foi procurar o reteté no teu Dicionário Banto, porque mui possível e provavelmente esse termo é obra de nossa incontornável memória linguística e cultural banta. Não está lá, mas acho que devia, hein? Tem alguma sugestão etimológica? (Dizem os adeptos que o termo vem do italiano, relacionado com alguma coisa de culinária, mistura, mas não creio.)”

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E foi por aí, o Rafael, sem imaginar que, logo,logo, a pastora do “reteté” ia aparecer no programa da Regina Casé e bombar na TV e no Segundo Caderno de O Globo onde manifestou seu grande desejo de gravar um CD e fazer sucesso.

Não imaginava também o Rafael que o REPLEPLÉ, que virou “reteté”, parece vir mesmo é do fon, língua do Benin, antigo Daomé, cujos resíduos sobrevivem no Brasil nos cultos do chamado JEJE, irradiados principalmente a partir de Cachoeira, no Recôncavo Baiano.

Nessa língua, o termo ‘kplekplé” (de “kplé”, reunir) significa acúmulo, multidão, “em grande número”.

Na Bahia, o povo do jeje interagiu bastante também com o povo dos cultos bantos, angola e congo. E talvez seja dessa boa mistura que saiu o “reteté”.

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Agora – confessamos – já não temos mais tanta empolgação quanto às possibilidades do “reteté”. Mas ficamos felizes com a revelação artística da pastora Ana Lúcia, cuja carreira de “pop-star” agora parece que... esquenta!







WALTEL BRANCO, AOS 82, RECEBE MERECIDO TRIBUTO

“BRANCO, Waltel. Músico brasileiro nascido em Paranaguá, PR, em 1929. Diplomado em violoncelo e violão pela antiga Escola Nacional de Música e discípulo do mestre espanhol Andrés Segóvia (cf. Grande Enciclopédia Delta Larousse,1970), na década de 1950 viveu nos Estados Unidos, onde trabalhou com o prestigiado violonista Laurindo de Almeida. De volta ao Brasil, destacou-se como guitarrista de jazz, compositor de trilhas para cinema e tv; e como arranjador e regente na Rede Globo de Televisão”.



O texto acima, rápido e rasteiro, integra o verbete da edição 2011 da Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana no qual tentamos recuperar a figura de um dos maiores músicos brasileiros de todos os tempos. Mas o caso é que não havia como fazer registro mais amplo, tal a amplitude e a diversidade do trabalho de Waltel, herói da guitarra.

“Ele regeu diversas orquestras, foi um dos precursores do jazz fusion, influenciou Baden Powell e o violão de João Gilberto, fez trilhas para cinema entre as quais um dos mais famosos temas da sétima arte, fez trilhas para novelas, arranjos e direções musicais” – está lá no Blog do jornalista e músico Luiz Nassif, em recente postagem.

Agora, chega ao público o CD “O Violão Plural de Waltel Branco”. No qual violonistas como Guinga, Paulo Bellinati, Marco Pereira, Ulisses Rocha, Quarteto Maogani e vários outros rendem tributo ao grande Waltel Branco, gênio afrobrasileiro. Que inclusive trabalhou com Henri Mancini na trilha do filme “A pantera cor de rosa” e arranjou em samba alguns temas do célebre compositor e maestro, perpetuados no disco cuja capa fecha este post.





Quarta-feira, Janeiro 04, 2012



A “NOSSA” ANTOLOGIA. UMA CONQUISTA DE PESO.

Finzinho do ano, em boa hora, o suplemento Prosa & Verso do jornal O Globo colocou Literatura e Afrodescendência no Brasil: antologia crítica (4 vols. Belo Horizonte, Ed. UFMG, 2011) entre as dez melhores obras literárias brasileiras publicadas em 2011. Não adiantou a pressão do racismo que não ousa dizer seu nome, o qual se serviu do velho argumento de que não existe Literatura Negra no Brasil para “detonar” a gigantesca empreitada capitaneada pelo professor Eduardo de Assis Duarte.

A literatura repertoriada nessa obra monumental, agora justamente premiada, representa um conjunto de textos, de autores afrodescendentes, que, de uma forma ou de outra, encerram referências à identidade, à ação e à memória do povo afrobrasileiro. E como tal deve ser vista e respeitada.

O próprio Eduardo A. Duarte já havia, em obra anterior, Machado de Assis Afrodescendente (Rio, Pallas, 2007), destacado esse traço na obra machadiana. Como Uelinton Farias Alves já tinha feito com a poesia de Cruz e Souza.

A literatura escrita por afrobrasileiros (“pretos” ou “pardos”) que se vejam e sintam como tal, é sempre uma parte da Literatura Negra que se produz no Brasil desde a carta escrita, no século XVII, por Henrique Dias. Nela, o “comandante dos negros” reclamava às autoridades coloniais do abandono e do descaso que recaíra sobre sua pessoa, depois de ter se destacado com heroísmo na expulsão aos holandeses de Pernambuco.

Então, o destaque dado à “nossa” Antologia é uma conquista que vale a pena comemorar. De preferência, com a aquisição dessa obra indispensável.




Quarta-feira, Dezembro 28, 2011



“A NOITE FELIZ DOS BAMBAS”

Pleno domingo 25 de dezembro, Natal, o Lote foi agraciado com um presentaço.

Veio na matéria de capa do Segundo Caderno de O Globo, primeiro e único ( Noite silenciosa), a propósito de canções brasileiras de Natal, referência elogiosa ao nosso trabalho. Nela, o emérito e inquestionável jornalista e crítico João Máximo consignava:

“Há duas ilustres exceções de CDs que tentaram dar vida ao Natal musical do Brasil. O primeiro deles, de 1999, é o melhor: “Um Natal de samba”. Sambistas do primeiro time, como Nei Lopes & Wilson Moreira (“Vou sussurrar aos ouvidos de Deus estes versos meus..."), Zeca Pagodinho, João Nogueira, Dona Ivone Lara & Délcio Carvalho, Luiz Carlos da Vila, Arlindo Cruz & Sombrinha conseguiram provar que Natal também dá samba. Mas quem se lembra?”

Acrescentamos que a ideia veio de muito antes, no LP (“Pagode de Natal - A Noite Feliz dos Bambas”) cuja capa encima estas notas e no qual já constava o samba por ele citado.

Chama-se “Canção da Esperança” o samba; de autoria de Wilson Moreira & Nei Lopes, embora, no lp (em que cada faixa representava uma escola de samba) tenha sido, por vontade nossa, creditado apenas ao querido “Alicate”, bamba da Portela. E a íntegra da letra é a seguinte:

CANÇÃO DA ESPERANÇA
Wilson Moreira – Nei Lopes
(Ed. Mus. Tapajós)

Esta canção
Vai ecoar pelos céus e chegar
Lá bem além do horizonte sem fim
Aos pés do Eterno e Grande
Arquiteto do Nosso Universo.
Um rouxinol
E um coro de querubins a cantar
Vão sussurrar aos ouvidos de Deus
Estes pálidos versos meus.
Vão sussurrar aos ouvidos de Deus
Estes pálidos versos meus.

II

Deus, faz este mundo encontrar a paz!
Desiguais torna iguais
Num grande aperto de mão, num só coração
Num sorriso inocente de criança,
Numa canção de esperança
A ecoar como esta canção.

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JOÃO MÁXIMO SABE DAS COISAS!




Sexta-feira, Dezembro 23, 2011



UM NATAL DE SAMBA

(por Cláudio Jorge)

Paulinho Albuquerque produziu para a Velas em 1999 o disco Um Natal de Samba. São sambas compostos por Wilson Moreira e Nei Lopes, Sérgio Santos e Paulo César Pinheiro, Luisinho SP, Almir Gunieto, Zé Luiz, Dunga e Toninho Nascimento, Roque Ferreira, Barberinho, Marquinhos Diniz e Luiz Grande, Arlindo Cruz e Sombrinha, Mauro Diniz, Cláudio Jorge, Luiz Carlos da Vila, Dona Ivone Lara e Décio Carvalho. Algumas faixas interpretadas pelos próprios autores, outras por Zeca Pagodinho, João Nogueira, Emílio Santiago e Toque de Prima.

É um disco maravilhoso e a minha dica é a faixa de Dona Ivone Lara e Délcio Carvalho, É Natal. Obra prima, tanto o samba quanto o disco produzido pelo Paulinho.
Participam da gravação Carlinhos Sete Cordas, Dininho e Jorge Hélder (baixo), Wanderson Martins (arranjo e cavaquinho) Itamar Assiere (piano e teclados), Jorge Gomes (bateria) Ovídio Brito, Marcelinho Moreira e Gordinho (percussões), Cláudio Jorge (violão), Eduardo Neves (sopros) Ary Bispo, Eveline Hecker, Jurema de Candia e Toque de Prima (coro).

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É IMPERDÍVEL !!!
OUÇAM NO "BLOG DO COMENDADOR"

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O VELHOTE
DESEJA FELIZ NATAL
E UM ÓTIMO 2012!




Segunda-feira, Dezembro 19, 2011



AS MINAS DO REI JOÃO XXX

Em 1975, depois de um exaustivo e angustiante processo, o autor destas linhas conseguia ingressar na Ala de Compositores dos Acadêmicos do Salgueiro, escola do peito, na qual estreara no inesquecível carnaval de 63. Embora já profissional da música, não havia meio de ser aceito. E o caso, depois soubemos, era exatamente “profissional”, pois a Ala era dependente de uma das editoras filiadas a uma determinada sociedade autoral, que não era a nossa. Mas o apadrinhamento e a interferência do saudoso parceiro João Laurindo, cobra criada no samba e nas mumunhas autorais, acabou abrindo (um pouquinho só) daquele céu alvirrubro, onde muitos eram os chamados e poucos os excluídos.

E eis que chegam os preparativos para o carnaval; e eis que adentra a reunião dos compositores, enfatuado, com aquele seu sorriso de vencedor, sobraçando um monte de livros (no qual sobressaía o best-seller o “Eram os Deuses Astronautas”?), o carnavalesco Joãozinho – ainda com “z”. Cada um dos presentes à reunião recebeu um texto mimeografado, que era este aqui, ó:

“Senhores compositores do Salgueiro: com este enredo entrego uma grande missão. Na inspiração de suas letras e melodias os senhores irão escrever uma nova página na História do Brasil. A mais importante. Com a beleza de suas músicas ficará provado que os primeiros descobridores do Brasil foram os Fenícios. Todos ficarão sabendo que as lendárias terras de Ofir eram as terras brasileiras onde estavam as Minas do Rei Salomão. Sempre as composições eram escritas sobre histórias conhecidas. Agora são os senhores mesmos que irão escrever esta página que está faltando na História do Brasil, fazendo o povo vibrar através da alegria e beleza de seus sambas-enredo. Desejo a todos muita inspiração – a) João Jorge Trinta”.

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Vinte sambas foram apresentados. E Joãozinho, auxiliado – segundo se dizia – por uma talentosa assessoria musical, fundia dois sambas concorrentes, criava algumas frases novas e obtinha o resultado desejado, da mesma forma que no ano anterior já fizera um “copidesque” do samba que foi pra avenida, como mostrado em nosso livro “O Samba na realidade...” (Rio, Ed. Codecri, 1981), infelizmente esgotado.

O caso é que o samba, mesmo biônico, ficou ótimo; e a escola ganhou o carnaval. Como ficou ótima, também, em termos visuais, a fusão de várias pequenas alas para formar grupos maiores e mais compactos, as tais “alas reunidas”.

Entretanto, essas inovações e outras que vieram depois, adotadas em todas as escolas, foram minando as estruturas sobre as quais se assentavam as agremiações até então.

Antes, as alas de compositores eram organismos autônomos – a nossa tinha até estatuto registrado em cartório; era uma pessoa jurídica!!! –; e daí em diante passaram a ser meros “departamentos musicais”, dentro das mega-estruturas que se foram criando, enquanto que, no sentido inverso, as alas de “componentes”, agigantadas, passaram a constituir pequenas empresas.

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Joãozinho Trinta (com “z” ou com “s”) merece todos os louvores póstumos que lhe estão sendo prestados neste momento. Foi realmente um Artista brilhante!

Mas os efeitos de sua atuação na transformação do desfile das escolas em super-espetáculo, que pesaram forte na Arte do Samba e no espírito comunitário e associativo outrora existente, também não podem ser esquecidos neste momento.

Que seu espírito inquieto agora descanse em Paz!




Terça-feira, Dezembro 13, 2011

DEU NO ESTADO DE MINAS



Jornal Estado de Minas, terça-feira, 13 de dezembro de 2011




Domingo, Dezembro 11, 2011



O "BLOG DO COMENDADOR" É ÓTIMO.
Até Dona Ivone Lara está lá!


Nosso saudoso Paulinho Albuquerque nos deixou uma tremenda saudade. Assim, seus amigos e "viúvas", à frente nosso cartunista e humorista Reinaldo Figueiredo, o "Reinaldo da Casseta", criaram e mantém um blog dedicado à memória do grande produtor e guerrilheiro da cultura brasileira.

Neste sábado, 10, entraram no ar algumas novidades, assim comunicadas pelo Reinaldo:

As últimas do blog do Comendador Albuquerque
- Bruno Veiga lembra mais um papo impagável.
- Num e-mail dos anais: o Comendador, os "evangélicos" e a cultura afro.
- O som de Nei Lopes, Alcione e Dona Ivone Lara...

http://comendadoralbuquerque.wordpress.com/

Vale a pena dar uma olhada.




Quinta-feira, Dezembro 01, 2011


Portinari

O 2 DE DEZEMBRO E O MICRÓBIO DO SAMBA

Micróbio é bactéria, protozoário, fungo patogênico. Então, é preciso ter cuidado. Pode tirar a graça, o sincopado, o miudinho, o bolebole das cadeiras. E ficar só aquele bumbo chato, batendo lá na frente. Dito isso, vamos ao que interessa:

Qualquer discussão sobre samba tem que começar com a separação da forma tradicional (que é transmitida oralmente através dos tempos, sendo quando muito, objeto apenas de registros de pesquisadores) e essa produzida em escala industrial e difundida pelos meios de comunicação de massa.

Até os primeiros anos da década de 1960 – quando a bossa-nova ainda era chamada pelos pesquisadores de “samba moderno”, e a sigla MPB ainda não tinha sido inventada -- o chamado “samba de morro” (hoje, “samba de raiz”) ainda configurava uma “cultura”, ou seja, comportava um conjunto de traços distintivos, herdados da tradição. O sambista tinha vestuário, fala, gestual, comportamento, hábitos etc. bem característicos. E o samba era expressão artística no sentido mais amplo, envolvendo criação e performance, inclusive coreográfica.

Tudo isso foi se enfraquecendo na medida que os núcleos e redutos do samba se modificavam, com o distanciamento das escolas de suas comunidades, com o primado do espetáculo em detrimento do espírito associativo. E aí até a dança foi esquecida.

O pessoal das velhas-guardas, num saudosismo melancólico, ainda tenta organizar almoços, passeios, visitas, como nos outros tempos. Mas, na sociedade atual, nada se faz senão visando o retorno financeiro. Então...

Sobre a exclusão do samba do universo definido pela sigla MPB, achamos que é resultado de uma estratégia de mercado que infelizmente deu certo. Por quê um samba cantado por um artista alinhado ao pop internacional vira “MPB”? Por quê um samba feito por um compositor negro e pobre é recebido de maneira diferente daquela que é recebido o de um compositor pertencente a uma família patriarcal ou burguesa ? Por quê o repertório da bossa-nova (“Só danço samba”; “Samba do avião”; “Samba de uma nota só”, etc) não é efetivamente reconhecido como samba?

Na minha visão, tudo isso é principalmente fruto do incômodo que o protagonismo negro ainda causa. E ocorre para que o samba, enquanto cultura, fique restrito à Bahia. E, no Rio, seja apenas uma música carnavalesca, de difusão restrita ao mês de fevereiro e à “avenida” Marquês de Sapucaí. Ou uma música de botequim. Ou, ainda, uma forma diluída, vazia, cada vez mais próxima do pior pop internacional.

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Dito isto, ergamos um brinde (consciente) pelo “Dia Nacional do Samba”.




Quinta-feira, Novembro 24, 2011